21/11/06

Quem anda à chuva molha-se

É estranho ver as coisas assim a mudar, é estranho agora pensar no bem que me fez o mal que me fizeste e entender tudo como apenas mais outra nova lição que me trouxe aos dias de hoje. Lembro-me de pensar, com tanta pena e nostalgia, nos dias que não viriam, e achar, com uma distância de estrelas, que em breve também seriamos outono. Gostar de ti era como respirar debaixo de água, e toda a vida era apenas o que nós sabíamos. Hoje no entanto tudo tem a complacência de um entardecer a insinuar um eco ausente, de dever ter entendido melhor o contexto perene das palavras. E vieram morar em cada um de nós novas pessoas que já não se conhecem, que eclipsaram qualquer tradução coerente dos seus passados com uma recusa inexpugnável. Porque depois é fácil a negação plausível das profundidades que atingimos e há afinal um arrependimento. No fundo só procuravamos encontrar a manhã de transparência que nos fizesse aceitar, e ela surgiu, apenas quando já podiamos desmentir os contratempos, largar a pele e fazer de novo. Só veio quando a dor já dormia no meu colo como um animal de companhia. Sim, o que queremos tão pouco é aquilo que precisamos. O remédio para a dor foi a própria dor. E agora a sua ausência até é estranha. Afinal todos falam de liberdade, mas até esta pode ser uma prisão se nada nos dissolve além das abruptas margens dos sentidos... Ultimamente tudo teve o seu golpe de estranheza como se não andasse num mundo real e objectivo. Apesar de tudo acordar é sempre bom quando a chuva me faz companhia, a cair de propósito e a deixar-me ancorar em si a breve errância matinal.
E já não fico tão à prova de sentimentos..

13/11/06

Porque ás vezes não sei falar na língua em que penso...

Talvez haja mais mensagem no subtil do silêncio inclinado de um não-dito, como no branco que fica do papel em que se escreve, do que no anúncio incompletamente cogitado e vago de uma ideia. Há demasiada informação erodida até só no acto de pensar um pensamento ou de sentir um sentimento. Gastamo-lo de ser nosso e de o ter numa dada altura, atribuindo-lhe imperfeição, sacrificando o conceito inenarrável à tentativa de exprimi-lo. É um dilema de perfeccionismo, uma faca de dois gumes: se por um lado a linguagem surge pela necessidade de comunicação, ao mesmo tempo acaba por subverter essa fuga da abstracção. E há todo um universo de subjectividade até só num "sim", num "pois" ou num "fui para casa às três da tarde" que a própria linguagem ás vezes me parece mais um muro de opacidade a rodear a totalidade suspensa das minhas intenções, do que o canal necessário para as verbalizar. Parece-me que há uma especificidade progressiva nesta história da linguagem, uma necessidade de condensar as aptidões de inteligência e habilidade para dar num crescendo de manifestação instantânea do potencial, na amplificação máxima do indivíduo, ou na subdivisão em "existências" individuais(f.p.), neste último caso, de modo a não ter que tratar algo no seu uníssono de visões e, à boa maneira do "divide and conquer", tratar cada uma de uma forma mais inteira.. Mas não sei, não acho que transformar uma imagem num puzzle e observar cada peça individual e minuciosamente seja a premissa necessária. No fundo depois dessa desconstrução e reconstrução, a imagem que surge é a de nós mesmos a montar o tal puzzle, desfigurando a suposta identidade a descobrir e manifestar num caleidoscópio interminável de eus. Acho que prefiro o traço imperfeito, o risco calculado... E pensando bem até há algo no rigor que não me seduz, talvez uma ausência de ansiedade.. Sempre haverá naufrágios no que dizemos e fazemos e acabam por ser também um ingrediente essencial na matéria invisível do poema vivido. Nessa aceitação serena (não resignação) do desconhecido, do que não se controla, é que talvez se forme o túnel de luz por onde podemos levar uma vida, ainda que não exacta no seu traçado, plena nos seus significados...

08/11/06

Sobre.. coisas

É que tudo o que se quer é apenas ser, e deixar claro tudo o que há em nós, quando nos atinge o ter nascido sem entender o para quê de tantas falsas situações. É que quem decide deixar em aberto todas as opções possíveis acaba por nunca tirar o pijama, numa estranha forma de seguir a vida mais semelhante a uma hibernação, a uma latência de espírito. Como que a ver o que o tempo faz por mim, primo pela espera desarmada, pela luta por algo mais puro, não tão longe daquele fundo a que queria chegar. Mas nunca dá para dar a volta, quebra-me a condição sabê-lo e custa até já ouvir-me só querer mudar as coisas. É uma queda à espera que me nasçam asas. Fica-se com tudo para dar. E ainda que se vá morar para outras ideias e sensações, nunca se fecha a porta à chave das antigas, nessa determinação esparsa de manter uma identidade: como o querer ficar, o querer subir, o alimentar paixões desmedidas, o acender a luz, o dar o meu sal,
o ser e andar pela rua como as correntes de ar... E para quê? Que quem tem este mesmo mal de não saber amar sabe como é triste o fim ser igual, irreal, o denominador comum das histórias, sempre fora da hora, sempre a hemorragia, sempre traído pela própria devoção à verdade do coração… Deve ser crime e castigo, culpa e sentença, o mundo tem ao menos esse sentido – da causa e efeito… ou não.

Seja como for acolho então esta forma de estar, em que me sinto impreparado para a própria
existência, fechado para obras… Aprender. Não vou contrariar, mas também não vou sugerir, para
não encher copos sem fundo, cultivando os prazeres simples da vida. Só quero vontade de sorrir
quando olho pela janela…
E chega, vou parar para dormir, mas antes:


**pluto - entre nós**
“Tal como o pássaro tem de voar para ser o que é
Teu homem tem de viver se desejas saber quem é
Fácil como voar, mas demora o tempo que for, é o tempo que tens
Para mudar, mas demora o tempo que tens”
(…)

E uma coisa engraçada que vi na bertrand: Hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!
(isto sim era o que 
eu queria dizer ^_^)

01/11/06

Andei por esta terra durante trinta anos e, por gratidão, quero deixar alguma lembrança. (Vincent Van Gogh)

Aparte as evidências do nexo e do que se tem como fidedigno, digamos assim, da realidade concreta, há algo que ocorre antes numa espécie de lucidez oscilante, num espectro alargado de consciência que cria esta abertura entre a rotina e a maravilha, uma geometria mágica onde tudo é possível, ou poucas coisas impossíveis, ou onde até mesmo a noção do plausível não faz muito sentido. Não falo de uma distorção ou fabulação onírica das coisas. É antes uma predisposição da líbido mental para ver o mundo como um exame das experiências directas que nos apresenta: os sentidos são um teste à nossa capacidade de perceber algo além deles, a matéria é um teste à nossa curiosidade, a dúvida um teste à nossa vitalidade. Somos no fundo pontos onde o mundo se observa a si mesmo, frequentemente sem a noção consciente de que a percepção é uma forma de visualizar a relação do pedaço de mundo que somos com o restante. Há antes uma tendência para a observação dita externa, para um isolamento a priori, para um limite circunstancial que na verdade não existe. Há uma nebulosa de hipocrisia em redor desse percurso-padrão do entendimento. Por isso é que me faz sentido que a perspectiva artística seja a mais verdadeira que se pode ter em relação ao que quer que seja. Porque fala da dialéctica indivíduo-mundo de uma forma mais primordial, sob um paradigma mais directamente colocado. E porque não exclui da sua expressão (escrita, plastica, musical...) nenhum dos elementos desse diálogo: seja a entidade que observa, seja o objecto considerado (objecto esse que pode coincidir com a entidade que observa), seja a relação de ambos entre si, e de cada um com o meio que determina essas mesmas relações. Há ali uma universalidade que me agrada, uma abrangência, uma quebra de barreiras que não se conota com a rebeldia incipiente de quem quer deixar o ego a luzir e sentir-se deus. Há verdade enfim, nessa ressonância poética essencial que se encontra entre nós e o mundo, nessa urgência de sonhar, nessa procura de uma massa crítica num sítio fora do mapa... Arte é quando dizemos "eu vi" ao invés de "eu criei". É quando dos ruídos do dia se extrai uma gota de música