28/12/06

Num ciclo de abandono..

Há em certas alturas de encontrar as coisas, um vôo rasante e frio pelos corredores das hipóteses, e a cruzar a amplitude inteira do que se pode pensar e sentir, num fascínio assimétrico pela orla da vida. E tudo está tão calado; por causa dessa outra atmosfera, desse outro lugar, toca-nos uma tristeza antiga. Um fio de cansaço pelo abismo que se nos apresenta. A distância daqui ao depois é maior que a intenção do meu salto, que a vontade de paisagem nova. Porque cada nova paisagem é simplesmente igual a todo um filão de visões que já tive.. É fechar o livro, como se já soubesse o que vai acontecer. No entanto, nunca sem ironia, é-me apresentada outra forma de equilíbrio - sempre aquele que não havia imaginado - um esboço secreto de algo que ainda está para vir, condensado numa crença. E aquece como um lume de inverno o tudo cair de novo no seu lugar, como a sapiência de uma verdade a disciplinar-me a convicção... E a alma mistura-se em amenas conversas consigo mesma, no sabor de uma nova, ainda que vaga, conquista. Os significados despem-se das palavras, comovendo-se com a inocente e trágica lição destes pequenos nadas que são tudo, e fundem-se de novo, respirando já uma nova consciência. Depois outra palavra que os procura, puxando essa história ao palpável, excedendo-se com uma luz um pouco mais clara que o dia, para seguir na estrada, registando o imperceptível movimento de fora para dentro das memórias. E notamos que naquele momento, crescemos mais um pouco para nós mesmos, eventualmente para os outros, e houve ali nomes para o descrever...


Na volta do círculo, em torno de sítios que ficaram vazios, acontecimentos que ficaram quase incompreensíveis, descrevendo concentricidades em que apenas difere a metáfora, na sequência
de um ciclo de abandono, como um coração que pára de bater...

E o vento lá fora que vive sem chão, mede a força da noite
esvazia-a, e abre o instante de preparação do dia
soltando o seu aceno intacto para as horas...

04/12/06

Intervalo

Às vezes do fundo das ideias vem uma brisa que parece nascer do nada, uma espécie de conjugação de verbos desconhecidos, uma procura que poderia conduzir a algo, nem que fosse tão somente ao mesmo, mas tendo a certeza que houve uma procura, de que se caminhou, nem que em direcção à pura simplicidade do nada. Apenas em mais uma tentativa de pronunciar o mundo, de uma forma íntegra, dotada de unidade como um organismo vivo. E nessas alturas percebe-se bem a natureza escalar e contrastante da forma como vemos as coisas, e notamos não só as presenças de tudo, mas as ausências que lhes servem de pano de fundo; e o escuro de repente é uma mentira contada apenas aos nossos olhos e percebemos o interstício onde a respiração do mundo se sustém; aquilo a que chamamos silêncio... Subitamente é possível entrar numa espécie de omnipresença, numa arrítmia de trajecto vário, e entra-se em longos diálogos com os indizíveis a que não se pode dar forma tantas vezes, de frágeis que são os ramos em que poisam.. É assim que as verdades se encontram, sem corrimão, sem legados, com aquela poderosa arma que é a imaginação, a pulverizar as escalas, a destituir as classificações arbitrárias, usando apenas da elegância natural da mente como ferramenta na busca de um valor definitivo. Ainda que este só dure um instante luminoso já valeu a pena e já é mais fácil dormir tendo por companhia uma nova transparência de convicção. O apelo a uma relação mais primordial entre chão firme e vertigem para que o sonho que aí vem seja destituído de noções que não são o que querem significar; para de uma forma mais voluntária, adormecer como quem inventou o próprio intervalo em que repousa..